segunda-feira, 4 de julho de 2011

Planejamento Participativo

   A pedido de Ruthieli, aluna de magistério que estuda em Charqueadas, RS, publico um texto sobre planejamento em que se indica sua importância para a prática. É longo, mas acho que o conteúdo vale a pena. O quadro não vai sair, mas o essencial estará claro.
    Já estou pensando que é melhor buscar o texto na internet: basta digitar o título abaixo na busca do Google que o texto aparece, embora eu nem saiiba quem ali o colocou.



O PLANEJAMENTO COMO FERRAMENTA DE TRANSFORMAÇÃO DA PRÁTICA EDUCATIVA[1]

                                                                                              Danilo Gandin[2]



Considerações Gerais

1. É fundamental pensar o planejamento como uma ferramenta para dar mais eficiência à ação humana. É claro que é uma ferramenta de organização, de decisão. Não é, por exemplo, uma ferramenta para a execução de alguma tarefa material, como a faca o é para cortar batatas. Mas o princípio é o mesmo: assim como a faca auxilia a tarefa de cortar  batatas (sem ela seria muito mais difícil) o planejamento facilita as decisões e lhes dá consistência e auxilia na organização da prática.

2. O planejamento é natural ao ser humano; para qualquer ação que produzimos, fazemos o que é essencial ao planejamento: motivados por algum problema, acompanhado de alguma esperança de alcançar mudança, propomos um futuro desejável; fazemos uma avaliação da realidade para ver a distância a que estamos deste futuro e quais são as possibilidades de alcançá-lo ou dele nos aproximarmos; finalmente propomos ações, atitudes, regras e rotinas para realizar esta aproximação. Desde que o ser humano se constituiu como tal, isto é, desde que se reconheceu como ser humano, distinguiu-se dos animais por ter esta capacidade de produzir o futuro de forma consciente.

3. Contudo, as pessoas, mesmo em seu trabalho, normalmente não planejam no sentido comum do termo; em vez de assumirem suas próprias decisões e serem sujeitos da organização de sua prática, seguem o que já está constituído como problema, como idéia, como análise da realidade e como solução. Embora planejem, dão outro significado a esta tarefa: ela passa a ser a escolha entre duas ou mais possibilidades que estão constituídas como válidas pelo senso comum. Um professor, por exemplo, não pensa o que é a educação, como ela se produz e a partir daí decide o que ele vai fazer; ele está submetido a “passar” uma disciplina e não pode perguntar-se se isto é bom ou mau, ele apenas tem que fazer; seu planejamento vai ser uma prática secundária: vai apenas perguntar-se como ele fará para “passar” o tal conteúdo, como vai fazer com que os alunos prestem atenção, como vai dar nota... Se planejar significa[3] atacar um problema com um corpo de idéias claras, examinar a realidade e a prática para ver a distância entre elas e este conjunto de idéias e propor um conjunto de ações, regras, rotinas e atitudes para mudar a realidade e a prática na direção daquele conjunto de idéias, temos que afirmar que o professor não planeja e que, talvez, nem possa nem deva[4] fazê-lo.

Daí decorre que as pessoas, no dia-a-dia:

1.      não descobrem com clareza quais são os problemas; em geral, julgam que é problema aquilo que o senso comum assim estabelece; se os professores, por exemplo, tem, em sua sala, um aluno inquieto, que não se contenta com estas disciplinas sem significado e com este “saber” que não faz as pessoas crescerem, dizem que este é o problema;

2.      não constroem conjuntos de idéias e de ideais bem claros; adotam elementos teóricos que estão no dia-a-dia, mas que não têm fundamento real; acreditam, por exemplo, como muita gente diz, que quem se esforça, consegue; não conseguem compreender coisas tão simples como a relação entre dinheiro e resultado na escola: se ouvirem que os reprovados são sempre os pobres e os que vão adiante na escola são os ricos, pensam que quem diz isto é doido ou subversivo;

3.      não conseguem fazer uma avaliação de sua prática pessoal e da do grupo ao qual pertencem; dizem que encontrar o que vai mal é fazer desanimar as pessoas ou sentem como culpa o não se alcançar aquilo com o que se sonha;

4.      muito menos conseguem propor mudanças na realidade ou na prática; o que se tem que fazer, julgam, já está determinado e ninguém pode querer fazer diferente; no máximo, poderia alguma autoridade mandar que se mudasse isto ou aquilo; mas, de qualquer modo, se for necessária uma mudança real no fazer das pessoas, nem aquilo que a autoridade diz será levado a sério.

4. Planejar é, sempre, buscar a transformação da realidade. É, sempre, propor ações, atitudes, regras e rotinas que possam levar à satisfação de necessidades descobertas na realidade (ou na prática) através da avaliação que é a comparação do que se quer com aquilo que existe. Mas há o planejamento que muda para manter (para conservar) e o planejamento que muda para transformar. Se você conserta uma casa, o que você quer é conservar, embora esteja, realmente, mudando a realidade. Se você a derruba para construir outra, você quer transformar. Se você pune um aluno que transgrediu alguma regra, você quer conservar, se você muda as regras, de modo participativo e baseado em necessidades descobertas na avaliação que compara uma teoria e um querer com a prática, você quer transformar. Se você introduz novas tecnologias para tornar menos tormentoso o conteúdo tradicional que só serve para o vestibular, você mudou para manter as condições de quem tem dinheiro seguir em frente e os pobres nada conseguirem; se você acaba com o conteúdo preestabelecido, com o vestibular, você muda pra permitir condições mais parecidas para todos. Se você faz um viaduto na cidade, você muda para privilegiar  os automóveis; se você cria grandes espaços onde os carros não possam ir, você muda para permitir vida mais tranqüila às pessoas.

            5. Há níveis diferentes de planejamento porque há diferença nas ações humanas. Se alguém quer ir ao teatro ou a uma pescaria, deve planejar. Mas este planejamento é diferente daquele que fosse para ajudar a decidir sobre a construção de uma casa e a organizar o trabalho para construí-la. Bem diferente de um plano global de escola. Se professores têm que decidir sobre “como” vão “dar” uma aula, este planejamento é diferente daquele necessário para um grupo de escola que queira dar uma direção democrática, dialogal ou de justiça social ao seu trabalho[5].



Os Passos para uma Prática Lúcida

Todo o fazer humano está ligado a ser um conjunto de ações, rotinas, regras e atitudes para transformar idéias em realidades[6].

1. Só pensamos a partir de problemas, isto é, a partir de algo que nos causa mal-estar. Algumas vezes este mal-estar diz respeito a coisas que diretamente nos afetam, tanto pessoas ou instituições, e outras vezes a coisas que, infligindo sofrimentos a pessoas e a grupos longe de nós[7], passam a ser da nossa preocupação ou do nosso interesse. Poderíamos, talvez, caracterizar os primeiros como internos e os outros como externos. Assim, os primeiros seriam coisas como uma doença pessoal, uma escola com diminuição constante de alunos... Os segundos seriam situações como a degradação do planeta, a violência, o terrorismo... Por isto, há sempre uma dose de esperança, de desejo e de amor em qualquer pessoa ou grupo que inicia um processo de planejamento.

Abrir a mente ao mundo é extremamente importante[8]. Há, inclusive, uma linha de pensamento muito consistente que diz: a pessoa ou a instituição que se prende a seus problemas imediatos, geralmente adoece. É preciso considerar, com cuidado, se o fato de as escolas ficarem “passando” ao aluno um conteúdo sem significado para não especialistas não é uma verdadeira doença. Também vale a pena considerar se a síndrome da desistência não é doença que afeta professoras e professores pelo mesmo motivo: enquanto o planeta sofre sérias possibilidades de deterioração, a escola lhes pede para serem repetidores, para não ousarem...

Pode-se chegar a pensar que escolas e professores não planejam, isto é, não instituem processos novos, porque não têm problemas. Dizendo melhor: não planejam porque os problemas para os quais abrem os olhos são insignificantes e têm soluções pré-determinadas. Tais soluções não funcionam, mas são tentadas sempre por dois motivos: desenvolveu-se todo um discurso de culpabilização que parece explicar os maus resultados e a escola perdeu a relação entre prática e resultado, de modo que fica mais importante trabalhar do que conseguir resultados.

2. Não pode haver idéias transformadas em processos se não houver idéias. É um terrível engano, mais comum do que parece, a prática de partir do problema para o processo. No caso da mãe com que abri o texto, um problema (desarmonia mãe/filha) suscitou, sem pensamento e sem análise da realidade, um processo: briga e xingamento. Existem até correntes de planejamento que se basearam (não tão grosseiramente, é verdade) nesta relação direta problema-processo. Nada se consegue, evidentemente, desta maneira; os resultados podem ser desastrosos, como ainda hoje acontece nas escolas: o menino incomoda muito na sala de aula (problema) e é posto de castigo ou enviado à direção da escola (processo, solução). Observe-se que não será suficiente analisar o problema sob vários ângulos; é necessário chegar a ele com um conjunto de idéias e de crenças sobre o processo educativo, a fim de descobrir qual é a necessidade ou quais são as necessidades[9]  que deve(m) ser satisfeita(s) para solucionar ou diminuir o problema. Agir com a ligação direta problema/processo seria como se fôssemos ao médico com a mão doendo e ele nos mandasse cortar a mão para que não doesse mais.

A organização de idéias é, nas circunstâncias atuais, uma das necessidades mais importantes. Estamos em crise, isto é, naquele momento de nossa História em que as idéias do senso comum já não resolvem e as idéias novas ainda não demonstraram sua força.

No caso da escola, estas idéias podem organizar-se no instrumento que se chamou projeto político-pedagógico[10].

A. Situação Existente (problemas e desafios da realidade global e institucional)
B. Marco Político (proposta ideal de sociedade e de ser humano que desejamos ajudar a construir)
C. Marco Pedagógico (princípios, prioridades e características ideais do processo educativo que se deseja)

3. Ouso dizer que o ponto mais fraco desta cadeia de construção de novos processos pedagógicos nas escolas é a falta de análise da prática. Não sabemos o que é um diagnóstico e temos medo de fazê-lo. É imprescindível avaliar a prática, comparando-a com o projeto pedagógico que se elaborou, e analisar a realidade para descobrir a distância que se está daquele ideal proposto e para ver que possibilidade e que limites temos para a caminhada na direção daquele horizonte.

Já estou eu, de novo, a falar em situações mais complexas! Quero acentuar que esta necessidade de diagnóstico assim entendido é válida para as práticas simples também. Se alguém quer ver um filme, examina a realidade (sem, muitas vezes, dar-se conta disto) para ver a que distância está, de que meios dispõe, quais são as dificuldades, se pode ir ao cinema ou alugar o filme ou esperar quando passe na televisão...

Na escola esse diagnóstico equivale a uma análise de todos os processos em andamento a fim de verificar até que ponto eles são adequados para realizar as idéias que constaram no projeto pedagógico. Talvez este seja o nó da questão: se o projeto pedagógico tem a idéia de escola democrática, de ligação da escola com a realidade (são apenas exemplos), ela precisa analisar com atenção e rigor até que pontos os processos (ações, atitudes, regras e rotinas) estão construindo democracia, até que pontos conteúdos escolares brotam da realidade e levam a compreendê-la. É essencial esta compreensão dos processos existentes para poder descobrir necessidades de novos processos e de correção dos que podem ser mantidos, mas precisam de mudanças.

4. Se fosse possível transformar idéias em processos e fazer isto com utilidade sem depender dos passos anteriores, poderíamos ter uma economia de tempo, de trabalho e, até, de recursos. Muitos pensam que isto é possível e trabalham séria e duramente, por longos períodos, sem ter resultados convincentes. Nem sabem por que, tendo eles (pessoas ou instituições) se esforçado tanto, com tanta boa vontade, se encontram na mesma situação (às vezes pior) depois de anos e anos. É proverbial o esforço de pais, de educadores, de escolas, de igrejas... É também evidente o pouco resultado, a repetição de processos ineficazes, a manutenção da mesma sociedade que criticam[11].

Os processos, muitas vezes, são predeterminados. Funcionam, por exemplo, na medicina: quando o diagnóstico, feito a partir de idéias que sustentam uma teoria, estabelece uma doença ou um mal qualquer, o médico apela para o processo que já foi estabelecido por estudos anteriores. Isto poderia levar médicos a usarem sanguessugas para tratar certas doenças. Isto não acontece (coisas similares devem estar acontecendo com médicos menos atentos ou menos estudiosos) porque estes processos são continuamente submetidos à prova da eficácia. Se outro mais eficaz é descoberto, ele é logo adotado e o que é fundamental acontece: um resultado, motivado por um processo engendrado pela análise da realidade em confronto com uma idéia, tudo isto deslanchado por um problema. Na escola não é tão simples. (Isto não é sugestão para que se abandone o trabalho sério; ao contrário, é para que se sigam com mais exatidão os passos necessários). Não é tão simples porque, além da ciência, as idéias educacionais são sempre permeadas pelas crenças, pela Filosofia, pela arte, pela ideologia. Há quem queira fugir disto, como o reitor de quem falei antes, mas isto não é possível

Em educação temos processos preestabelecidos. Eles foram construídos a partir de problemas velhos, derivados do confronto entre um conjunto de idéias que serviam a humanidades passadas  e uma realidade não mais existente. Não servem mais para os problemas, para as idéias e para a realidade de hoje, mas se firmaram. Pior: algumas idéias comerciais, como a do livro didático e a da preparação para o vestibular, superaram a força das idéias educacionais e pedagógicas e dificultaram significativamente a construção de processos adequados à realidade, às idéias e aos problemas que são, a cada dia, apresentados por todos. A inoperância das autoridades (Conselhos de Educação, Ministério, Congresso...) deixou escolas e professores sufocados num torvelinho de tentativas, frustrações, enganos, desesperanças...

É preciso desenvolver clareza sobre educação. Mas cada vez é mais necessário desenvolver ou apropriar-se de ferramentas de planejamento adequadas para construir processos, permitindo, assim, que educadores sejam sujeitos do seu desenvolvimento.

Para isto é necessária persistência para:

·         exigir das autoridades a preocupação não apenas com pôr todo mundo na escola, mas com saber o que fazer com estas multidões de alunos e de alunas;

·         ir construindo novos processos, mesmo que em quantidade pequena em relação a todo o tempo que a escola tem[12].



            Se representarmos a seqüência e a relação entre eles da forma como penso que ocorrem, teremos o seguinte quadro:

  



  










O Planejamento e as Necessidades Humanas

            Há vários  tipos de planejamento porque há vários tipos de ação humana. Uma coisa é, por exemplo, ir a um cinema (precisa de um tipo de planejamento), outra é construir mais participação numa cidade (outro tipo de planejamento) e uma terceira construir uma ética planetária (outro tipo).

Vale a pena, por isto, verificar alguns tipos de situação humana[13] e analisar a especificidade do planejamento por ela exigido. Claro que cada exemplo abaixo é uma possibilidade entre muitíssimas parecidas ou iguais.

A - O Conserto de um Automóvel

Para consertar máquinas, certamente há necessidade de planejamento. Ele consistirá de três passos:

  • compreensão do padrão da máquina, isto é, da estrutura que lhe permite o funcionamento, ou seja, do seu estado ideal; deste passo em geral não se fala e as pessoas não se dão conta de que ele existe porque naturalmente ele é preexistente na mente de quem vai fazer o conserto e não precisa ser enunciado;
  • um diagnóstico – é o que mais aparece – buscando descobrir as diferenças existentes na máquina real em relação ao padrão ideal desta mesma máquina; o conceito central deste diagnóstico é o de problema e o seu resultado mais forte é a relação de problemas detectados; faz parte deste diagnóstico, também, a avaliação de possibilidades e de recursos;
  • decisão do que se vai fazer, incluindo aqui as ações diretas de solução do(s) problema(s) e/ou as orientações (propostas como estratégias) de uso da máquina.

Com mais complexidade por causa do “humano” nele existente, o trabalho do médico usa um esquema igual a este.

B - A Administração de um Aeroporto (este tipo inclui, também, quase todas as situações de planejamento de empresas comerciais e similares, como as de serviços mais simples).

 Muito parecido com o caso anterior é a administração de alguns serviços públicos, não necessariamente governamentais, cujo padrão esteja quase totalmente dado. Há idéias de segurança, bem-estar, bom atendimento, rapidez, etc. que devem ser realizadas. Estas idéias dão os critérios – pode-se falar aqui de indicadores – para a prática.

As três etapas do planejamento descritas acima permanecem. O que é diferente são os conteúdos que se acrescentam em relação ao que se realiza no caso anterior.

  • Além da compreensão do padrão básico do serviço que é dado pela cultura dos usuários e pelo costume que se cria, é necessária aqui a complementação deste padrão, no sentido de buscar mais contentamento para os que usam o serviço, incluindo ou não maneiras próprias de servir. O levantamento de sugestões junto ao público é a forma primeira de participação dos usuários na fixação deste padrão.
  • O diagnóstico, além de verificar a existência e a extensão de problemas, incluirá o grau de satisfação das pessoas que trabalham no serviço e dos que usufruem seus benefícios.
  • A decisão sobre o que se vai fazer é mais abrangente em virtude dos acréscimos anteriores. Além disto, estas decisões insistirão mais em estratégias, visando aos modos de ser e de se comportar que aumentem a qualidade do serviço, dentro do padrão estabelecido. Pode contar com mais mudanças, algumas estruturais, que são geradas pela modificação do padrão referencial estabelecido.

C - A Fábrica de Sapatos

As indústrias e as empresas de serviços mais complexas aumentam os campos de liberdade na ação e no planejamento, forçando a utilização de modelos, técnicas e instrumentos mais elaborados e o alargamento dos conceitos embasadores. Há necessidade de posições estratégicas mais claras e de aumentar a análise da realidade social, chegando, eventualmente, à idéia mais alargada de missão, que inclua fortemente o bem-estar de pessoas e até de grupos que, às vezes, não são ligadas diretamente à empresa.

D - O Sonho e a Prática da Escola, do Partido Político, do Sindicato...

Pouco se tem escrito sobre o planejamento de instituições, grupos e movimentos cujo primeiro fim seja o de gerar riqueza não material, isto é, o de contribuir para a construção do ser humano e da humanidade. Pensa-se, em geral, que planejá-las quer dizer administrá-las. Gerenciar recursos parece suficiente: os planos de uma escola ou sindicato devem seguir os mesmos enfoques dos planos de uma fábrica ou, quando muito, de uma prestadora de serviços. Embora, enquanto delas se fala, se distinga o público do privado, se façam exigências maiores quanto à lisura do uso de recursos, quase sempre estas entidades são remetidas, para efeitos de ferramenta de planejamento, aos mesmos modelos, técnicas e instrumentos que são oferecidos às empresas cujo primeiro fim é o lucro. Ora, estas ferramentas não servem  para instituições como escolas, partidos políticos, sindicatos,... nem para grupos e movimentos da sociedade civil, porque estas entidades precisam de uma ferramenta que lhes permita cumprir melhor sua função de participar da luta de dar estrutura à sociedade.

Mas, até para estas entidades, os pontos básicos do planejamento são os mesmos. De fato, não há planejamento sem estes três momentos que indiquei nos casos anteriores. O que é novo é a abrangência social que o Planejamento Participativo dá a estes momentos, especialmente ao primeiro, o que traz conseqüências para os outros.



As Grandes Linhas de Planejamento e seu Uso

            O planejamento, embora inerente ao ser humano para encaminhar as questões do dia-a-dia, torna-se uma ferramenta com conceitos, modelos, técnicas e instrumentos bem definidos a partir do começo do século passado, com a revolução comunista que constrói a União Soviética. No mundo capitalista, o planejamento, para as questões mais complexas, passa a ser usual, nos governos, depois da segunda guerra mundial. A partir desta adoção pelos governos, o planejamento passa a ser uma das preocupações de instituições, grupos, movimentos, organizações não governamentais: podemos dizer que ele se universaliza.

            Hoje vivemos a segunda grande onda de planejamento. A primeira entra em crise na década de 70. A década de 80, embora, na prática, se apresente como uma grande resistência ao planejamento, contém os mais efetivos anos em termos da compreensão da necessidade, do estudo, do esclarecimento e da confirmação desta ferramenta.

            Como fruto disto, temos agora bem caracterizado o planejamento como ferramenta de intervir na realidade e, mais do que isto, diversas correntes de planejamento firmadas como ferramentas próprias para as diversas necessidades dos grupos, das instituições, dos movimentos, das ONGs e, até, de setores de governo, segundo suas especificidades.

            Assim, retomando as diferentes necessidades apontadas acima, seguindo o mesmo esquema de letras A. B. C. e D. e não fazendo diferenciação para algumas especificidades muito determinadas que poderão aparecer, teremos o quadro que segue.

A.    Para estes casos aperfeiçoou-se o planejamento que se chamou “Solução de Problemas”.

B.     Este é o caso típico do “Gerenciamento da Qualidade Total”.

C.     Estamos no reino do “Planejamento Estratégico”.

D.    Só o “Planejamento Participativo” pode dar conta destes casos.

É claro, também, que, nestas ferramentas, propostas por diferentes escolas de planejamento,  há uma seqüência de menor para maior abrangência. Assim, algumas partes da prática de uma entidade que está em B. podem ser administradas pela ferramenta A., a entidade que está em C. poderá utilizar, para alguma de suas áreas, a ferramenta A. ou B. e assim por diante.

O que é fundamental é que a equipe que coordena qualquer processo de planejamento se dê conta de que sua primeira grande tarefa é decidir qual ferramenta será usada como fundamental. Não é possível ser eclético quando se trata de ferramentas: ou você trabalha com o martelo ou com a pá. Se quiser utilizar as duas ferramentas ao mesmo tempo, pouco alcançará e ainda correrá o risco de se machucar.



[1] Algumas idéias para propiciar a reflexão.
[2] Professor, escritor e conferencista. Mestre em Educação, especializado em Planejamento Participativo.
[3] Ver adiante, neste mesmo texto,  a parte que se intitula “Os Passos para uma Prática Lúcida”.
[4] Se não quiser entrar em choque com aquilo que está estabelecido.
[5] Ver, abaixo, “O Planejamento e as Necessidades Humanas”.
[6] Não pretendo confundir ninguém: na verdade, a prática de definir processos e pô-los em prática é, também, um processo, o processo de planejamento, seja escrito ou apenas pensado.
[7] Para os cristãos valeria a pena lembrar a Parábola do Bom Samaritano, dentro da qual o próximo não era aquele que estava junto, mas aquele que sofria, mesmo distante.
[8] O Planejamento Participativo, em seu modelo básico, inclui o Marco Situacional com esta finalidade: a de abrir horizontes, a de compreender os desafios que vêm das grandes questões que a humanidade enfrenta em cada época.
[9] Ver GANDIN, D. A Prática do Planejamento Participativo. Petrópolis, Editora Vozes, páginas 98-102.
[10] Falar em idéias quando estamos nos referindo a escolas é dizer Projeto Político-Pedagógico. Diante dos desafios (problemas) sentidos na realidade global, a escola vai propor, num conjunto de teoria e de ideologia, uma proposta de sociedade e de ser humano e, como conseqüência, um tipo de educação apropriada a contribuir para a existência daquela sociedade. Dizer, como fez um reitor de universidade no Rio Grande do Sul, que aquela instituição teria um projeto pedagógico, mas não um projeto político-pedagógico, é desconhecer o valor das palavras e é não se dar conta de que todo processo educativo tem, necessariamente, mesmo que não se a declare, uma finalidade que é sempre política, no sentido que se destina a contribuir para um tipo de sociedade.
[11] É óbvio que mudanças significativas não ocorrerão por causa da escola. Mas é alarmante que ela siga mais autoritária que a própria sociedade em que se integra e discutindo (na verdade repassando) conteúdos muito menos significativos para o todo social do que fazem jornais, revistas, rádios e televisões.
[12] Ver GANDIN, D. “Medidas Essenciais para a Escola Hoje”. São Paulo, Edições Loyola-AEC. 2003.
[13] Retomo idéias de artigo publicado numa revista virtual, em seu primeiro número, no endereço www.curriculosemfronteiras.org.

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